raquelkogan
lâminas


2000




Depois que o microscópio foi inventado, o homem passou meio século observando pequenas estruturas visíveis a olho nu, que o novo aparelho magnificava: as antenas de um inseto, o ovo do bicho-da-seda ou os buracos da cortiça.
Então, apareceu o holandês Antony Leewenhoek, dono de um armarinho, que decidiu olhar o invisível: espalhou nas lâminas de seu microscópio rudimentar gotas de sangue, pingos de chuva e o próprio sêmen. Descobriu um mundo povoado por uma miríade de seres minúsculos.
A partir de Leewenhoek, invadimos os domínios de estruturas inacessíveis à precariedade da visão humana. Além de descobrir bactérias, vírus e fungos, levamos às lâminas dos microscópios cortes micrométricos de tecidos vivos. Nesse processo, o objeto é cortado seriadamente e colocado sobre lâminas transparentes para observação microscópica. Depois, a informação obtida em cada corte precisa ser organizada na tentativa de explicar o todo.
Raquel Kogan esculpe imagens em suas lâminas dispostas em espaços ordenados. Curiosamente, muitas delas são números, signos primários decifráveis até por analfabetos.
Como os microscopistas, diante das caixas de Raquel o observador secciona a realidade em inúmeros cortes transparentes, para tentar recompô-la em busca da unidade.

Drauzio Varella
médico e escritor
outubro de 2000

After the microscope invention, man spent half of century observing small structures visible to the naked eye, which the new gadget magnified: an insect antenna, silkworm egg or cork holes.
Then, the Dutch Antony Leewenhoek came around, owner of a notions store, who decided to look into the invisible: spreaded in his microscope blades blood drops, raindrops and his own semen. He discovered a world inhabited by a myriad of minuscule beings.
From Leewenhoek on, we invaded a domain of the structures otherwise inaccessible to the precarious human sight. Beside the fact of detecting bacteria, virus, fungus, we took to the microscope blades micrometric cuts of alive tissue. In this process, the object is cut serially and placed upon the transparent blades for the observation into the microscope. Afterwards, the information obtained from each cut need to be organized in an attempt to explain the whole.
Raquel Kogan carves her images into blades orderly disposed. It is interesting that many of them are numbers, primary signs that even illiterates can understand.
Facing Raquel’s boxes an observer, just like the microscopist, sections the reality in several transparent cuts and then tries to place them together searching for a unity.

Drauzio Varella
M.D. and writer
October 2000